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7.6.16

Chapter 4 - Inabalável


Demetria Devonne Lovato'
   Eu estava sentada em uma roda, cheia de outras dezenas de estudantes. Para falar a verdade, era  uma roda enorme. Era o início do segundo semestre daquele curso, e por causa disso os responsáveis haviam resolvido que seria bacana se houvesse um tipo de atividade que reunisse todos os alunos, para os unirem ainda mais. Eu achava a ideia em si bacana, mas ainda não havia entendido o porquê de precisarmos estar sentadas num círculo.
   Então, para tornar aquilo mais estranho ainda, nos mandaram colocar um lenço nos olhos. E explicaram que apenas uma pessoa iria ficar sem a venda, e essa pessoa deveria sussurrar alguma coisa para uma outra pessoa. Uma coisa íntima, que tinham vergonha de falar cara a cara. Por isso, nem a pessoa veria quem estava falando com ela.
   Confuso? Provavelmente. Mas foi até divertido.
   Eu nem me lembrava do que havia dito, talvez que eu achava a blusa de uma das garotas bem bacana. 
   Enfim, o que realmente me surpreendeu foi quando eu, com os olhos vendados, de repente senti alguém se aproximar de mim. 
   E assim aproximar a sua boca ao meu ouvido. Eu senti um calafrio.
   "Você não deve me conhecer, mas sabe, eu te acho tão linda. A mais linda desse lugar".
   Na hora a única coisa que eu fiz foi rir, e ouvir ele sair correndo, possivelmente para voltar ao seu lugar na roda.
   Eu só não sabia que aquele comentário poderia se transformar em algo tão importante para mim.
   E o quanto eu desejaria aquele dia de volta. Só para poder viver tudo aquilo de novo.
   Afinal, foi assim que me encantei pelo Joseph. 
   Ou pelo menos, foi como tudo começou.
   
~

   Eu respirei fundo. A senhora lançou um olhar espantado para mim, mas o senhor pareceu me compreender, mesmo dando para perceber o quão aquilo era difícil para ele. Para eles. 
   Afinal, eles estariam dando adeus a um filho.
   - Você tem certeza? - foi apenas o que o doutor perguntou, com um tom pacífico. Eu não conseguiria mais olhar para os que deveriam ser meus futuros sogros.
   Abaixei a cabeça, e deixe-me pensar um instante.
   Pus-me a lembrar de todos os melhores momentos que tive com ele.
   Quando ele sussurrou no meu ouvido, no meio de uma brincadeira da faculdade, o quanto eu era linda pela primeira vez.
   Quando ele me derrubou numa piscina de uma festa, também da faculdade.
   Quando ele veio até a mim afirmando que havia se desafiado a me chamar para sair.
   Quando ele se declarou para mim pela primeira vez, subindo numa árvore e me pedindo em namoro.
   Quando ele me fez fingir que estava bêbada na frente dos amigos dele para podermos fugir logo e ficamos a sós. 
   Quando ele me deu um colar com pedrinhas de coração, afirmando que cada um deles simbolizava o quanto ele me amava (e no final se corrigindo que na verdade não tinha maneiras o suficientes para descrever todo aquele amor).
   Quando tentamos adotar um cachorro, mas não conseguimos mantê-lo por sequer uma semana e demos ele para uma prima de Joe.
   Quando ele subiu novamente naquela árvore e me pediu finalmente em casamento.
   Quando eu aceitei, e percebi o que aquilo significava.
   Quando eu percebi que na verdade talvez ele não tivesse partido totalmente...
   Aqueles, e tantos outros, eram momentos únicos, momentâneos, mas eternos em meu coração e na minha mente.
   Momentos apenas meus. Apenas nossos.
   Eu o amava demais. Demais. Demais.
   E por isso, eu jamais conseguiria não dar valor ao seu pedido. Mesmo este sendo completamente angustiante.
   Por fim, segurei a mão dos pais do Joseph, com força, e assenti.
   Lágrimas escorriam pelos meus olhos, mas eu estava decidida. Era aquilo que ele queria, afinal.
   - Sim.
      
~

   A vida é uma coisa tão irônica, tão trágica, mas ao mesmo tempo tão engraçada.
   Tudo acontece tão rápido. 
   Procuramos a nossa felicidade, a nossa paixão, a nossa carreira, o grande amor de nossas vidas. E quando a achamos, encontramos um motivo para tornar a vida melhor a cada dia. Um incentivo para continuar vivendo intensamente.
   E, como parte desse viver intensamente, as coisas acontecem tão rápido.
   E então repentinamente as coisas são arrancadas de nós. 
   Sofremos. Muito.
   Mas isso é que nos tornam fortes. Não só os momentos felizes, que nos preenchem com uma força vindo da satisfação de viver.
   Porém também os momentos mais tristes, os mais assustadores, os mais desafiadores, os mais destruidores.
   Coisas terríveis acontecerão. 
   Eu não sou totalmente inquebrável. Estou ciente disso.
   Mas preciso ter uma alma inabalável. Precisamos.
   Para quando tentarem me derrubar, nos derrubar, podermos nos levantar do chão.
   Como arranha-céus.
   
   Acariciei a minha barriga, levemente volumosa.
   Eu sentia a sua presença em mim. Ele sempre estaria comigo, afinal.
   Ele se chamaria Joseph.

.

3.5.16

Chapter 3 - Inabalável


Demetria Devonne Lovato'
   "Joseph, você sabe que eu não gosto quando você faz isso." eu resmungava, enquanto ele ia me guiando. Meus olhos estavam totalmente vendados por um lenço, e ele segurava a minha mão.
   "Sabia que eu odeio quando você me chama de Joseph?" ele afirmou, com a voz um pouco debochada. "Lembra-me de quando a minha mãe ficava brava comigo porque eu não arrumava a minha cama." ele riu com o próprio comentário, e eu apenas revirei meus olhos.
   "Então me fala para onde estamos indo!" ele não me respondeu. "Ou me deixe tirar logo essa venda da minha cara. Eu devo estar parecendo uma retardada". 
   "Você é uma retardada."
   "Cala a boca!" exclamei, irritada. Eu escutei ele começar a rir. "Como você é chato!"
   "Olha quem fala..." ele soltou aquilo e começou a rir ainda mais. Dessa vez, comecei realmente a me irritar.
   "Joseph Adam Jonas, eu vou tirar essa venda maldita da minha cara se você não me disser onde estamos!" ele novamente me ignorou, e eu ainda pude escutar ele rindo. "JOE!"
   "Calma, mulher!" eu bufara alto. E então finalmente ele hesitou. "Pronto, chegamos, amor. Agora, só espera mais um pouquinho, tudo bem?" pediu ele, de certa maneira manhosa, e soltou a minha mão. 
   "Você só pode estar zoando comigo, Joseph." resmungara novamente. "Eu odeio você!" 
   "Pode tirar a venda agora" afirmou ele, e eu o obedeci sem pensar mais.
   No entanto, assim que tirei a venda dos meus olhos meus olhos eu franzi as minhas sobrancelhas. Eu reconhecia aquele lugar. Estávamos naquela praça que sempre vinhamos quando éramos mais novos, quando nós dois ainda estávamos na faculdade. 
   Eu lancei um olhar confuso para Joseph, que então esboçou um sorriso de lado e virou-se em direção a aquela mesma árvore em que ele havia subido alguns anos atrás para me pedir em namoro. Automaticamente eu arregalei os olhos.
   "Joe, o que você está fazendo?" ele me ignorou mais uma vez, e então segurou em um dos galhos mais baixos daquela árvore. "JOE!" dessa vez eu berrara, percebendo que ele pretendia novamente subir naquela árvore. "JOSEPH, PARE COM ESSA MALUQUICE!"
   Porém, de repente ele hesitou. Ele soltou aquele galho e virou-se para mim e começou a rir. Eu lancei um olhar irritado para ele, sem entender mais nada do que ele estava fazendo. 
   "Eu não vou subir de novo, Demi. Até porque eu nem conseguiria mais." afirmou ele, com um sorriso amarelo no rosto. "Eu só precisava que você lembrasse daquele momento. De quando você se tornou oficialmente a minha namorada. Porque eu queria que esse momento fosse tão inesperado e marcante como aquele foi."
   "Joe, o que você está..." mas ele então começou a se ajoelhar em frente a mim, não deixando-me terminar a minha pergunta. E quando em seguida tirou uma caixinha preta do seu bolso, eu levei as minhas mãos até o meu rosto e arregalei os olhos.
   "Oh meu Deus!" foi a única coisa que eu consegui afirmar quando ele abriu a caixinha, mostrando aquele anel pequeno porém muito brilhante. "Oh meu Deus, Joe..."
   "Demetria Devonne Lovato." ele hesitou, mas lágrimas já escorriam dos meus olhos. "Eu não consigo imaginar uma pessoa mais irritante do que você. E que faz mais escândalos, e dramas, do que você faz. Mas é você quem faz meus dias serem tão maravilhosos. Você é a luz da minha vida, Demi, e eu não consigo imaginar mais a minha vida sem você. E por isso eu quero que você seja a mulher com quem terei meus filhos, um garoto e uma garota. E que seja a mulher que acorde do meu lado todos os dias pelo resto da minha vida. Eu quero que você seja minha para sempre, Demi. E que eu seja seu para sempre! Por que não existe uma pessoa que completa a minha vida como você me completa." 
   Ele pigarreou uma vez e finalmente disse a frase que eu iria guardar na minha mente pelo resto da minha vida.
   "Demi, você quer se casar comigo?" eu não consegui segurar as minhas lágrimas. Novamente, ele havia me deixado surpreendida. 
   E dessa vez eu não hesitei nem um pouco ao responder. 
   "Sim! SIM!" ele então colocou o delicado anel no meu dedo, segurando a minha mão como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo, e quando ele levantou-se eu o abracei com todas as forças que eu tinha. 
   "Você me odeia mesmo, Demetria?" ele perguntou, ainda me abraçando. O tom dele havia soado de maneira tão irônica que me fez ficar com vontade de apertar ainda mais aquele abraço. "Por que eu te amo. Demais."
   "Eu não te odeio, Joseph." eu respondi, afastando-me e cessando aquele abraço. "Você é a minha vida, Joe. Eu te amo, e sempre amarei, seu retardado."
  Ele então selou os meus lábios e me beijou como se o mundo fosse acabar e aquele fosse o último beijo que ele me daria. E eu quis que aquele momento durasse para sempre.
   Assim como eu queria que aquela sua promessa realmente durasse para sempre, e pudéssemos ainda conseguir ter dois filhos, um casal. Ou agora, pelo menos uma garota.

~

   Era incrível como as vezes o mundo me assustava. Coincidências como aquela realmente me desequilibrava. E nesses momentos eu me questionava se, de verdade, a vida era justa.
   - Como está ele? - perguntou a mãe de Joseph, que segurava a minha mão. E foi só naquele momento que eu percebi o quanto eu me aproximara dela em meio a todo aquele tempo, assim como ao seu pai também.
   Haviam se passado o que, duas semanas? 
   Duas semanas que Joseph já estava ali. 
   Sem dúvidas, as duas piores semanas da minha vida.
   - Eu vou ser sincero com a senhora... - afirmou o mesmo médico que vinha acompanhando Joseph durante todo aquele tempo. E a senhora apertava a minha mão a cada palavra dita pelo doutor.
   - A situação dele está realmente delicada... - o senhor suspirou fundo e prosseguiu. - Ele, até agora, não respondeu a nenhum dos estímulos os quais lhe foi aplicado. É como se o corpo dele só respondesse aos movimentos necessários para mantê-lo vivo, nada mais.
   - O que o senhor quer dizer com isso? - o pai de Joseph perguntou, com um tom amedrontado. O cansaço estava visível em seus olhos, assim como os olhos da mãe pareciam brilhar, evidenciando o quão esperançosa ela estava por notícias de seu filho. 
   O senhor, o médico, pigarreou. 
   - Ele está em estado de coma desde quando ele chegou, senhor. - ele explicava aquilo de uma maneira calma, sem tom de frieza, mas que ao mesmo tempo parecia congelar as minhas entranhas. - E, realmente, é muito difícil alguém recuperar totalmente seus sentidos depois de tanto tempo assim, especialmente no estado em que ele está.
   - Mas ele não está morto... está? - perguntou a senhora, apertando ainda mais a minha mão. Eu sentia naquele momento como se cada parte do meu corpo pudesse desabar. Permaneci a encarar o senhor que usava roupa extremamente brancas.
   Ao perceber a hesitação do médico, ela insistiu.
   - Ele está morto? Meu filho?!
   - Desculpe-me a minha falta de sensibilidade... mas, como eu disse... ele está praticamente morto. - eu podia perceber o brilho nos olhos da mulher desaparecer. - É como se apenas as máquinas ainda o mantivessem vivo. Eu lamento, minha senhora.
   Aquilo efetivamente iniciou em mim uma sensação nauseante. Uma máquina o mantinha vivo, apenas. Isso não poderia ser verdade. Era muito injusto. 
   E torturador. 

~

   Adentrei sozinha aquela cômodo claro. A primeira coisa que eu senti foi as minhas pernas se congelarem. 
   Ele estava ali. Meu noivo, meu futuro marido. O homem com quem eu deveria ter meu final feliz. Não era para ele ser a minha alma gêmea?
   Era tão excruciante vê-lo daquela maneira. Principalmente ao saber que era aquela estranha máquina, ao lado esquerdo de sua cabeça, a responsável por mantê-lo ali. Mantê-lo aqui. 
   Será que eu conseguiria lidar com aquilo? 
   Aproximei-me a ele, e então sentei-me numa poltrona que ficava ao lado daquela cama. 
   E quando coloquei a minha mão em sua testa, eu não aguentei. Senti finalmente a minha alma desmoronar. Assim como o meu corpo.
   Não dava mais. Simplesmente não dava. Vê-lo daquela maneira, tão impotente. Tão frio. 
   Peguei em sua mão, e senti toda aquela sensação de quando eu havia a segurado pela primeira vez. E em como aquilo fizera meu corpo soltar faíscas. 
   Fechei meus olhos com força.
   Por que momentos como aquele eram tão passageiros? 
   Por que tirá-lo assim de mim, tão repentinamente? 
   Será que ele estava sofrendo? Será que aquilo o machucava também? Pensar nisso me fez tremer.
   Eu não queria arrancá-lo de mim. Jamais.
   Mas imaginar que ele estava sofrendo me fez soluçar ainda mais. 
   Era tão doloroso aquilo. Aquela sensação de responsabilidade. De ser responsável pela vida dele.
   Isso não era justo. Eu não queria aquilo.
   Mas a escolha não deveria ser dele?

Chapter 2 - Inabalável



Demetria Devonne Lovato'
   "O que você está fazendo?" indaguei, ao vê-lo repentinamente começar a subir numa árvore, a maior daquela praça inteira. 
   Ele escalava de maneira tão rápida e determinada! Entretanto, a única coisa que vinha na minha cabeça naquele momento era que ele iria cair e se machucar gravemente, principalmente se caísse àquela altura em que já estava.
   "Joseph, o que você está fazendo?" perguntei novamente. E ao ver que ele me ignorava, eu bufei alto. "Joe, você vai cair!" dessa vez eu dissera mais alto, mas ainda assim ele sequer ligara. 
   E então ele hesitou num dos troncos mais altos daquela árvore gigante. Tentou se acomodar ali, e de repente soltara um grito, fazendo com que todos do parque voltassem sua atenção para ele naquele exato momento. 
   Naquele instante eu quis enfiar a minha cabeça no maior buraco que existisse. 
   "Por favor, eu peço a atenção de vocês! Só por um minutinho." exclamara ele, sentado naquele tronco da árvore. 
   Todos olhavam para ele com os olhos arregalados, uns realmente surpresos com sua estranha atitude, e outros talvez achando que ele fosse realmente retardado, assim como eu estava pensando.
   "Agora, você veem aquela garota ali?" indagou ele, e só então percebi que ele me apontava, com um sorriso realmente bobo na cara. Senti meu rosto enrubescer ao ver agora o olhar de todas aquelas pessoas hesitarem em mim. 
   Mas o que diabos ele estava fazendo?
   "Todo mundo está vendo ela?" ele perguntou mais uma vez, fazendo com que todo mundo assentisse. Eu estava odiando aquilo. Joseph só poderia ser retardado.
    "Ela, é, como vocês podem ver, a mulher mais bonita que eu já conheci em toda a minha vida." ao escutar aquilo, senti como se meu rosto ficasse mais corado ainda, se isso era possível. "E, com certeza, a mulher mais maravilhosa que eu já conheci." 
   "Joe, o que você está fazendo?" finalmente ergui a minha voz, pondo-me a encará-lo lá do alto. E, mais uma vez, ele me ignorou.
   "E eu estou querendo fazer uma pergunta para ela a tanto tempo, e então decidi que vou fazê-la aqui e agora!" franzi minhas sobrancelhas, começando a ficar realmente preocupada com o que ele fosse fazer. 
   No entanto, logo ele se virou, descendo da árvore rapidamente, e foi aproximando-se a mim. Eu estava começando a ficar realmente nervosa, mas então ele me surpreendeu. Ele literalmente se ajoelhou-se em minha frente, e pegou a minha mão, beijando a costa da minha palma.
   "Demetria Devonne Lovato, você quer namorar comigo?" 
   Ao ouvir aquela pergunta, senti como se todo o meu interior se congelasse. Ele estava lá ajoelhado, com todos os olhares presos em nós, e acabara de me perguntar aquilo. Eu estava definitivamente sem reação.
   "Por que você subiu naquela árvore feito um retardado?" foi a única coisa que eu consegui responder naquele momento. Ele, no entanto, apenas riu da maneira mais escandalosa possível.
   "Eu precisava demostrar meu amor por você, Demi." ergui minhas sobrancelhas.
   "E precisava fazer esse escândalo todo?" ele sequer hesitara para responder.
   "Precisava." ao ouvir aquilo, eu não conseguira me controlar. 
   "Você é um retardado." afirmei, soltando uma risada fraca.
   "E isso é um sim?" eu demorei um pouco para responder, de propósito, mas então não aguentei.
   "Isso é um sim." depois que disse aquilo, logo percebi-o aproximar-se a mim, e selar meus lábios de maneira intensa. 
   Eu o amava. Eu o amava tanto.

~

   Eu nem havia visto a ambulância. E quando eu levantei a minha cabeça eu já estava sentada na sala de espera do hospital, aguardando por notícias. Nada daquilo havia entrado em minha cabeça ainda, estava totalmente inconformada com aquilo. 
   Por que aquilo? 
   Por que justo com ele, a pessoa com quem em poucos dias eu me casaria e com quem eu teria meu final feliz?
   Logo seus pais, meus futuros sogros, apareceram no hospital. Eles arregalaram os olhos para mim.
   - O que aconteceu? - perguntou os dois, parecendo confusos, mas ao mesmo tempo alarmados. 
   Eu não conseguiria contar tudo aquilo para eles, não naquele momento.
   E eu realmente não precisei, porque logo um dos médicos, que provavelmente estariam cuidando de Joseph, apareceu na sala e aproximou-se de nós. Ele carregava em seu rosto uma reação extremamente séria, o que definitivamente não me deixara mais segura, e então a notícia fora dada.
   - O estado dele é realmente grave. Ele teve realmente várias fraturas, e acredito que não poderemos fazer muito por ele. - dizia o senhor, de maneira mais clara possível, provavelmente tentando amenizar aquela situação, como normalmente médicos faziam. 
    - O que aconteceu com o meu filho? -  indagou a mãe de Joseph, com desespero, ao perceber que ninguém ainda respondera a sua pergunta. 
   - Ele sofreu um acidente, minha senhora. Um acidente realmente grave.
   - E ele irá ficar bem? - indagou novamente, com os olhos ainda mais arregalados.
   - Eu vou ser sincero, minha senhora. - começara ele, e respirou fundo. - Como eu disse, o caso dele é grave, realmente muito grave mesmo.
   - Mas ele vai ficar bem? - insistia a senhora, agora entrando em desespero pela omissão da resposta por parte dele. - Por favor, me diga que ele vai ficar bem!
   O médico dessa vez pareceu hesitar por um momento, o que me assustou, e lançou um olhar para o chão, mantendo-o por breves segundos. Eu já sabia qual era a resposta, mas ainda assim não poderia acreditar. 
   Mas então ele respondera-a, e tais palavras pareceram navalhas cortando-me internamente.
   - Ele está praticamente morto.

~

   Eu nunca havia me sentido assim. Tão só, tão fria. 
   Era como se todas as coisas ao meu redor de repente congelassem, e nada mais fizesse sentido.
   Como se uma parte de mim tivesse sido arrancada, a parte que me fazia ser feliz, e agora restasse-me só a infelicidade e a solidão. 
   Eu estava só, tão vazia.
   Ele estava praticamente morto.
   O meu Joe, praticamente morto.

17.7.15

Chapter 1 - Inabalável


Demetria Devonne Lovato'
   Apoiei minha cabeça na janela do carro, observando os pingos de chuva deslizarem pelo vidro. Eu estava cansada, e esforçava-me o máximo para não fechar meus olhos e cair no sono ali mesmo. Voltávamos de mais um dia de trabalho, e as vezes trabalhar na secretaria de um famoso consultório médico realmente era cansativo. 
   Joseph hesitou o carro, quando o semáforo ficou vermelho.
   - Eu posso te fazer uma pergunta? - Joseph de repente perguntou, fazendo-me franzir levemente minhas sobrancelhas. - Uma pergunta um pouco estúpida, mas que de repente veio em minha mente... - explicou ele, então virando-se para mim.
   - Claro, amor. - apenas respondi, assentindo levemente com a cabeça, mesmo eu achando um tanto estranho ele me perguntar aquilo. 
   - Hum, o.k. - Joseph pigarreou, e prosseguiu. - Se um dia você entrasse em coma, em uma coma profunda mesmo, e sua vida somente dependesse agora de uma maquininha... que forçasse seu coração a bater, o que preferiria? Que deixassem essa maquininha ligada, mesmo sabendo que as chances de você se recuperar fossem quase impossível, ou que a desligassem? 
   Eu automaticamente arqueei as minhas sobrancelhas, surpreendendo-me totalmente com tal pergunta. No entanto, assim que Joseph percebeu a minha reação, ele pareceu sentir-se constrangido, pois forçou um sorriso fraco.
   - Eu sei que é uma pergunta bastante trágica... - ele fez um careta, e depois soltou uma riso debochado. - Quer saber, vamos esquecer que eu te fiz essa pergunta. 
   - Deixe eu pensar por um momento. - o interrompi, ignorando completamente o que ele havia acabado de falar.
   Tentei analisar sua pergunta, tentando pensar numa resposta sensata para aquilo, mas logo novamente franzi as sobrancelhas.
   - Eu não sei... acho que preferiria que a máquina permanecesse ligada, sei lá. - respondi, com certa inseguridade. Joseph, que ainda me encarava, logo soltara uma risada sem graça.
   - Eu não sei por que eu fico fazendo essas perguntas bestas. - afirmara ele, com o tom um pouco envergonhado, e quando o sinal finalmente indicou verde o carro voltou a andar. - Sabe, coisas de um louco mesmo...
   - Você não é louco. - queixei-me, contrariando-o. No entanto, ele logo lançou um olhar desconfiado para mim, o que me fez rolar os olhos. - Está bem, talvez um pouquinho... Mas isso não me importa, porque eu o amo do jeito louquinho que é... - afirmei, e instantaneamente um sorriso formou-se em meus lábios. Virei para Joseph e percebi que ele também esboçava um sorriso de lado.
   - Eu ainda não acredito que daqui a alguns dias você será minha esposa. - comentou ele, o que me fez gargalhar baixo. - Sério, eu só posso ser o cara mais sortudo do mundo... Eu te amo, Demi, muito mesmo! Por favor, não me largue quando estivermos no altar, como a Rachel fez, no primeiro episódio de Friends...
   - Meu Deus! - eu exclamei, e então apenas bufei alto. - Eu vou fingir que eu não escutei isso, tudo bem? - avisei, fingindo estar irritada. Porém logo comecei a rir. - Eu também te amo, Joe. - afirmei aquilo, sendo totalmente sincera. 
   - Hum, mas qual a sua resposta? - indaguei, voltando a comentar sobre sua pergunta. - Você gostaria que a máquina permanecesse ligada ou não? - ele suspirou fundo, antes de finalmente responder.
   - Eu sinceramente acho que preferiria, hum, que a máquina desligasse. - respondera ele. Não pude deixar de me surpreender com a sua resposta, ainda mais do que a própria pergunta.
   - Sério? Mas... então você preferiria morrer?
   - Só acho que, entre ficar praticamente morto e morrer, preferiria que desligassem essa máquina e então acabassem com tudo aquilo. - respondeu ele, e depois sorriu fraco, explicando-se. - Sei lá, acho que pior do que morrer é dar falsas esperança para as pessoas que eu amo, que esperam que eu volte mesmo sabendo lá no fundo que realmente não vou voltar... - ele dizia aquilo de maneira tão calma e relaxada que realmente fazia-me ficar surpresa.
   De repente, um silêncio estranho surgiu de repente. Realmente estava impressionada com a sua resposta. E depois de mais uns segundos, finalmente resolvi quebrá-lo.
   - Resposta sensata. - afirmei, balançado levemente a cabeça .
   - Você perguntou, eu respondi. - disse ele, num tom inocente. - Eu vou parar rapidinho no mercadinho aqui, pode ser? - avisou ele, cessando totalmente aquele estranha conversa. Eu assenti, sorrindo fraco.
    Com isso, ele virou uma esquina e parou o carro, estacionando na frente do pequeno mercado.
   - Hum, eu vou até lá. - ofereci-me. Virei então para Joseph. Ele balançou os ombros de leve, mostrando indiferença em relação àquilo.
   - Certo. Ficarei te esperando aqui, então. - avisou ele. Ele falou para mim o que precisava que eu comprasse e entregou-me o dinheiro necessário para a compra. Sai do carro, fechando a porta atrás de mim.
~

   Assim que peguei a última coisa que Joseph havia mandado, um pacote de feijão, fui até o caixa, e coloquei a minha cesta em cima do balcão. Enquanto a senhora calculava a minha compra, fui pensando o quão engraçado era o fato de Joe saber mais do que faltava na cozinha do que eu mesma. Soltei uma risada fraca. 
   Uma coisa que eu realmente amava em Joseph era que, diferente de muitos homens que eu já havia conhecido, ele simplesmente adorava cozinhar, diferente de mim. Sorri de lado. Era como se ele me acrescentasse, porque, afinal, não tínhamos realmente os mesmos gostos, principalmente hobbies, mas do mesmo jeito sempre nos entendíamos, cada um fazendo a sua parte. 
   E era isso o que a maioria das pessoas que eu conhecia, inclusive meus pais, admiravam em mim e no Joseph. Éramos o casal perfeito, segundo eles. E, no fundo, eu também concordava com eles.
   - Obrigada e volte sempre. - disse a senhora do caixa, assim que paguei a conta, sorrindo gentilmente. Retribui o sorriso, pegando minhas compras, e sai do mercadinho.
   No entanto, no mesmo momento em que saia, de repente escutei um estrondo vindo de fora. Arregalei os olhos, assustada com tal barulho e, ao ver a imagem de meu noivo sendo prensado na parede por aquele veículo enorme que havia acabado de aparecer com alta velocidade, senti o desespero tomar conta de mim.
   Coloquei a mão em minha boca, e só depois percebi que estava correndo rapidamente na direção do mesmo, aterrorizada com o que havia acabado de presenciar. 
   Cheguei perto de onde havia acontecido o acidente, e ao perceber que nada se mexia em meio a eles comecei a entrar em pânico, gritando alto, e nem sequer me importando em me acalmar. 
   O carro de Joseph havia sido esmagado junto a ele bem na minha frente, naquele exato momento!
   Abaixei-me, tentando achar-o em meio aos destroços, já totalmente fora de mim. No entanto, logo senti alguém me puxar para trás. A senhora que havia me atendido também parecia bastante abalada.
   - O que você está fazendo? - perguntei, berrando, debatendo-me para soltar-me daquela senhora, que segurava meu braço com força. - Me solta! - eu exigi, balançando o meu braço de maneira frenética, e a cada minuto eu ficava mais desesperada.
    E ao ver que ela sequer se mexera, eu bufei alto.
    - Joe está lá em algum lugar, eu preciso achá-lo! - exclamava tudo aquilo com certa agressividade.
   Mas eu não importava com aquilo, importava com nada naquele momento. Só me importava com Joseph, e que ele acabara de ser esmurrado por outro carro e estava em algum lugar no meio daqueles destroços. 
   Tinha que estar!
   - Querida, a ambulância já está vindo...
   - ME LARGA! - berrei novamente, de maneira escandalosa. - ME LARGA! - gritava, chacoalhando meus braços com força, mas de nada adiantava. - ME SOLTA, EU PRECISO ACHAR ELE! - repetia, tentando fazê-la soltar meu braço, gritando até perder a minha voz. 
    E então, de repente, senti todo aquele pânico esvoaçar por um breve momento.
    Minha cabeça começou a processar tudo o que havia acontecido. O choque agora havia sido substituído pelo choro alto. 
   Joseph não poderia estar morto, não agora...
   - Me solta... por favor... - dessa vez eu murmurei, e ao ver que ela enfim me soltara, senti meu corpo desabar. Agachei-me no chão, colocando as mãos em meu rosto e deixando que as lágrimas dominassem o meu rosto, junto com a chuva que me molhava toda.
    Ele não poderia ter partido, simplesmente não poderia.